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Em meio a emoções artificiais, Baby do Brasil e família comovem o Rock in Rio

Baby e Pepeu RIR2015

Por ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER

Folha de São Paulo

Para comemorar sua guinada balzaquiana, o Rock in Rio achou que dava para fazer história a fórceps.

Reuniu popstars nacionais para cantar hits surrados e até pôs à venda 500 azulejos de acrílico preenchidos com lama removida (recentemente) do terreno onde aconteceu a primeira Cidade do Rock, em 1985. R$ 185 cada um.

O reencontro entre o ex-casal Baby do Brasil e Pepeu Gomes, que desde a separação, em 1988, não tocavam juntos, mostrou que emoção não é algo que se fabrica com uma boa equipe de marketing.

Claro que a ideia de escalar os velhos Novos Baianos, em show mediado pelo filho guitarrista Pedro Baby, 36, era uma estratégia publicitária esperta. O saldo, contudo, revelou que não dá para criar emoção artificial —quando ela é de verdade, acredite, você saberá.

E todos na plateia souberam. Num dos momentos mais bonitos do Rock in Rio 2015, pais e filho descobriram em tempo real, após uns poucos ensaios de agosto para cá, que o trio funcionava. “É um momento único na história da música. Tem que viver cem anos para viver uma coisa parecida”, disse Baby, 63, enquanto rodopiava seu tutu de bailarina, roxo como seus cabelos.

A apresentação foi um desdobramento de “Baby Sucessos”, turnê da baiana produzida pelo filho desde 2012. Só que, desta vez, o convidado especial era o homem com quem trocou fralda de seis filhos (Sarah Sheeva, Zabelê, Nana Shara, Pedro Baby, Krishna Baby e Kriptus Rá).

Eles entraram no Palco Sunset às 16h35 e, antes das 17h, todos já tinham ido às lágrimas. Num dado momento, enquanto o vento jogava suas madeixas para trás, Baby estirava os dois braços para cada extremidade do palco, onde Pepeu, 63, e Pedro “duelavam” em solos de guitarra.

O vencedor, no fim, foi o público bem heterogêneo, formado por senhores namorados, adolescentes em prantos e até uma vovó recriminada pelo neto ao tentar acender um baseado de maconha.

Pedro já tinha avisado que não cabia tanta história em apenas uma hora de show. Foi o suficiente para desfilarem clássicos deles em carreira solo ou na fase Novos Baianos, como “Masculino e Feminino”, “Todo Dia Era Dia de Índio” e “A Menina Dança”. Músicas acompanhadas em coro pela plateia e que são uma aula de como fazer refrão —e boa parte da “geração Sesc” contemporânea poderia passar por esse intensivo.

Em “Menino do Rio” (composta para Baby por Caetano Veloso), ela trocou o verso “dragão tatuado no braço” por “Jesus ‘forever’ tatuado no braço”, numa de suas várias amostras de proselitismo religioso.

Baby é do Brasil e, desde os anos 1990, também de Deus. Em 1985, quando ela e Pepeu tocaram no primeiro Rock in Rio, sua busca pela espiritualidade desembocou em louvação a Thomaz Green Morton, o guru do “rá” —grito energizante que também fez a cabeça de Gal Costa e Tom Jobim.

Agora, ela esclarece no palco, é “popstora” evangélica do “reino que não pode ser abalado”. Aproveita até para fazer propaganda de uma conferência gospel que programa para o final do ano: “Não Vai Ter Bunda Mole no Céu”.

Nem no céu nem na bem mundana Cidade do Rock, que minutos antes do show familiar começar era preenchida pelo hino gay “I Will Survive”, tocado num palco ao lado.

A milhas de distância de líderes como Silas Malafaia e Marco Feliciano, a sobrevivente Baby preserva o espírito livre da menina que, em 1985, cantou no festival de minissaia e top, grávida de oito meses do filho Kriptus Rá.

Questiona na letra: “Se Deus é menina e menino, sou masculino e feminino”. A menina, definitivamente, ainda dança.

Fonte: Folha de São Paulo (http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2015/09/1684181-em-meio-a-emocoes-artificiais-baby-do-brasil-e-familia-comovem-o-rock-in-rio.shtml?cmpid=newsfolha)

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