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Duas noções de Justiça para entender a tirinha sobre meritocracia

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Na semana passada uma tirinha bombou na internet, por discutir de forma muito contundente o tema da meritocracia. Se você ainda não viu, pode conferir aqui.

O debate sobre essa tira fica raso, no entanto, quando se confunde o que significa meritocracia. Para muita gente, defender ideais meritocráticos é ser elitista e conservador. Segundo os últimos quadrinhos da tira, o meritocrata é aquele escroto que fica jogando na cara que pobre tem que ser pobre mesmo, porque é preguiçoso. Quem lê muito literalmente o argumento da tira fica com uma impressão de determinismo social: o privilegiado não tem outra opção além de se tornar um cego social e um elitista preconceituoso. A menos, é claro, que seja iluminado pela razão e rejeite completamente a noção de meritocracia. Mas, será mesmo assim? Vamos por partes.

Primeiro, é preciso entender que existem duas noções diferentes de justiça, que são relevantes nessa discussão: as ideias de justiça como igualdade, ou como proporcionalidade. O que é justo? Que cada um tenha direito a uma parcela igual de alguma coisa, ou que cada uma tenha direito a uma parcela proporcional, segundo algum critério? Depende, é claro, do que se está dividindo.

Por exemplo: todos têm direito à vida, e o valor de cada vida humana não é proporcional a nada. Independente da contribuição de cada um, esse valor não muda, e todos têm esse direito de forma igual. Isso é assim na teoria. Na prática, no entanto, sabemos que não funciona muito bem. Quem tem muito dinheiro, ou tem uma profissão especializada e valorizada, não vai para a guerra – e não morre na guerra – com a mesma frequência que quem não tem nada disso. Isso é fato – o que não quer dizer que é, necessariamente, justo. Se Alan Turing é um gênio da criptografia, ele vai ficar protegidinho em uma instalação secreta na Inglaterra, e não vai morrer no front. Não ter deixado que ele morresse, na verdade, salvou milhares de vidas. Parece justo.

Quando pensamos na distribuição de renda, no entanto, é senso comum que a divisão proporcional seja justa. Não é consenso, mas é experimentado como justo por quase todo mundo: se eu trabalho cinco horas produzindo X e meu vizinho trabalha dez horas produzindo 2 X, parece justo que ele ganhe duas vezes mais do que eu.

Mas, há controvérsias. A tirinha tenta mostrar uma situação em que um indivíduo ganha muito mais que outro, sem que isso pareça justo. Ele tem um emprego melhor, mais qualificado e, provavelmente, contribui para a sociedade com algum trabalho muito valorizado. Por isso, ganha muito mais do que a moça, que exerce um trabalho menos valorizado. No entanto, isso só aconteceu porque ele teve privilégios. E a moça se esforça tanto quanto, ou mais. Não seria mais justo recompensar a pessoa com a vida mais sofrida, independentemente do valor do seu trabalho? Ela não merece?

Nesse ponto, há outro detalhe importante na ideia de justiça como igualdade: será mais correto pensar em igualdade de recursos, ou de oportunidades? Porque, se pensarmos bem, igualdade de recursos é um negócio bem impraticável. Vamos dividir o PIB igualmente para todo mundo independente de qualquer esforço? Quem resolver pegar esse dinheiro e usar para produzir arte, comida ou produtos úteis para a sociedade vai ganhar, e possuir, sempre o mesmo tanto que quem passar o dia assistindo TV. Parece justo? Além disso, igualdade de recursos materiais é o que deveria encerrar a questão da justiça? Se todo mundo tem a mesma grana, então o mundo está justo? Se alguém viver rasgando dinheiro, vamos continuar dando mais, para que fiquem todos iguais? E, se não for uma questão de dinheiro, igualdade de recursos seria o quê? Igualdade de felicidade? De saúde? De experiências que deem sentido à vida? É complicado.

Talvez, seja mais viável a igualdade de oportunidades. Por esse conceito, uma sociedade justa é aquela que dá a todos os seus membros as mesmas oportunidades. Basicamente, uma sociedade em que todos tenham direito à educação, de verdade e de qualidade, e onde a economia seja suficiente para que não faltem empregos, ou formas de se viver do seu trabalho. É bem utópico, mas, ao menos, algo mais concebível que a igualdade de recursos.

É fácil ver como meritocracia tem a ver com uma ideia de justiça como proporcionalidade. Quem “merece” mais, por algum critério, ganha mais. Mas, mesmo em uma sociedade organizada por um ideal de igualdade de oportunidades, a meritocracia continua valendo. É muito importante dar oportunidades iguais. Só que cada um vai fazer com essa liberdade o que quiser, e vai ganhar recompensas ou sofrer reveses de acordo com suas ações. Isso acabará gerando desigualdades sociais. De recursos, mas não de oportunidades.

Voltando para a tirinha, ela mostra que vivemos em uma sociedade injusta. Será que alguém discorda? É verdade, vivemos em uma sociedade injusta. Há enormes déficits de oportunidades e milhões de pessoas sofrem injustiças por isso. A interpretação que se tem feito da tira, no entanto, erra ao concluir que ela desbanque a meritocracia. Ela aponta uma injustiça social: a desigualdade de oportunidades. A sociedade que corrigir essa injustiça continuará dependendo de um conceito meritocrático de justiça, se pretender ser justa.

Discutido isso, fica mais fácil apontar a falácia mais frequente em toda discussão sobre meritocracia. Construiu-se essa ideia de que o meritocrata é um escroto que acha que o garçom que serve sua comida só não é um industrial milionário porque não se esforçou o suficiente. Isso não é o que pensa um meritocrata. Isso é o que pensa um idiota. Defender a meritocracia não significa ser cego para os problemas sociais, odiar pobres ou achar que se está acima dos outros. Pelo contrário. A questão é ter lucidez suficiente para saber que o caminho para uma sociedade justa, próspera, com oportunidades e direitos para todos, passa por valores culturais como trabalho, dedicação, seriedade e competência. Passa por educação infantil, saúde na primeira infância, parques, museus, acesso a cultura e lazer, esporte. Tudo isso gera pessoas que vão ter orgulho de fazer por merecer. Do outro lado, atacar a meritocracia, como se fosse vergonhoso ter sucesso, é a receita para continuarmos vivendo uma sociedade injusta.

Fonte: Brasil Post

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