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Os malefícios do fumo passivo ‘não estão comprovados’ pela ciência?

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Por Carlos Orsi

A regulamentação, pela presidente Dilma Rousseff, da lei que proíbe o fumo em espaços fechados de uso coletivo, como restaurantes ou escritórios, está causando alguma polêmica, principalmente entre as pessoas que acham que os direitos dos fumantes – e dos donos de empresas, bares, restaurantes – estão sendo violados.

Não cabe a este blog entrar no mérito da questão do direito individual versus poder do Estado, mas há um argumento, brandido pelos opositores da proibição, que merece um olhar cético: o de que os malefícios do fumo passivo “não estão comprovados” pela ciência.

Só para deixar claro: estão, sim. Os efeitos do fumo passivo são pesquisados há décadas, e o resultado tem sido tão consistente quanto constrangedor – para os tabagistas.

Em 1992, um levantamento de nove estudos sobre o assunto já concluía que a fumaça de tabaco, deixada no ambiente por um fumante, traz danos mensuráveis à saúde de quem mora com ele.

Claro, também saíram pesquisas – poucas – dizendo que a preocupação com o fumo passivo era bobagem. Mas, em 1998, análise estatística de 106 trabalhos a respeito do assunto, publicada no Journal of the American Medical Association, revelou que apenas 37% dos estudos diziam que o fumo de segunda mão era inofensivo, e que “o único fator associado à conclusão de que o fumo passivo não é prejudicial à saúde é o autor ser afiliado à indústria do tabaco”.

Em outras palavras, em mais de uma centena de estudos analisados, ter grana das fábricas de cigarro na jogada foi o fator determinante para que 37% deles chegassem à conclusão de que fumo passivo não faz mal.

Por fim, em 2004 a Agência Internacional de Pesquisa do Câncer (IARC, órgão ligado à Organização Mundial da Saúde) publicou um guia sobre o tema, onde afirma que o conjunto das pesquisas científicas disponíveis já permitia afirmar que a exposição passiva à fumaça de tabaco aumenta o risco de câncer de pulmão, numa elevação que vai de 12% (exposição no local de trabalho) a 30% (na convivência com um cônjuge fumante). Já o risco de problemas cardíacos aumenta de 25% a 35%.

Nada disso deveria surpreender: nem a indústria do cigarro disputa mais o fato de que a fumaça do tabaco é um veneno cancerígeno para quem a inala. É irrelevante, portanto, se essa inalação se dá de modo deliberado ou involuntário. No caso do consumo involuntário e indireto, o melhor que se pode esperar é alguma atenuação dos efeitos, já que a fumaça chega diluída pelo ar. E é exatamente isso que os dados empíricos e estatísticos mostram.

Como sociedade, podemos debater se um acréscimo de 12% no risco de câncer de pulmão (e de 25% no de doenças cardíacas), impingido aos não-fumantes por quem pita em locais fechados, justifica uma lei restritiva. O que não dá mais é para fingir, de boa-fé, que a única coisa ruim que o cigarro deixa no ambiente é o cheiro.

 

Fonte: Olhar Cético

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