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O homem que matou os X-Men

O escritor Chris Claremont esteve à frente das histórias dos X-Men por 16 anos. Ajudou a estabelecer personagens de sucesso, como Wolverine, e escreveu clássicos estudados em universidades. Com a chegada de “X-Men – Dias de um Futuro Esquecido” aos cinemas nesta quinta-feira (22), Claremont conta como fez da revista um sucesso ao matar seus personagens

A mutante Mística, interpretada por Jennifer Lawrence. Um assassinato cometido por ela pode destruir o futuro dos X-Men (Foto: Divulgação/ Fox)

A mutante Mística, interpretada por Jennifer Lawrence. Um assassinato cometido por ela pode destruir o futuro dos X-Men (Foto: Divulgação/ Fox)

 

A ideia era matar os X-Men. Em 1981, o roteirista Chris Claremont estava à frente do gibi mutante havia seis anos. Nesse tempo, transformara em sucesso de vendas um título à beira do cancelamento. Trabalhava com o desenhista John Byrne desde 1977. Juntos, os dois aprofundaram personagens queridos pelo público, como Wolverine e Noturno; transformaram uma das personagens principais, Jean Grey, em uma vilã sanguinária e, numa reviravolta digna de novela, mataram-na. A morte de Jean abalou leitores acostumados a um universo onde heróis não podiam morrer. Jamais. Sua ideia, agora, era matar os X-men. Todos eles.

Os leitores que correram às bancas receberam o aviso já na capa de X- Men 142. “Nessa edição, todos morrem” informava um balão em letras garrafais (imagem ao lado). Em um futuro apocalíptico, a população mutante é subjugada por robôs assassinos, os Sentinelas. Marginalizados, são forçados a viver em campos de concentração. Ao lutar, os X-Men são exterminados. Era assim que Claremont e Byrne punham fim a X-Men – Dias de um Futuro Esquecido, arco de histórias que ganharia o status de clássico dos quadrinhos. “A nossa intenção era mostrar que o destino daqueles personagens, e da própria série, era imprevisível”, disse Claremont a ÉPOCA. “E que nem todas as histórias têm um final feliz”. Hoje os originais de Dias de um Futuro Esquecido, junto dos outros escritos de Claremont, estão preservados na biblioteca da universidade Columbia, em Nova York. São alvo de estudos acadêmicos e do apreço de fãs do mundo inteiro. A história foi reeditada diversas vezes desde seu lançamento e, em 2014, adaptada para os cinemas.

Os Fabulosos X-Men 142. A capa anunciava o destino dos heróis (Foto: Divulgação/ Marvel)

Os Fabulosos X-Men 142. A capa anunciava o destino dos heróis (Foto: Divulgação/ Marvel)

O filme, que chega às salas brasileiras nesta quinta-feira (22), tem também chances de marcar época entre as produções do gênero. A começar pelas cifras envolvidas. No total, a franquia X-Men soma seis filmes que, juntos, renderam pouco mais de US$2,3 bilhões em bilheteria aos estúdios Fox. O sétimo, Dias de um Futuro Esquecido, precisará ser aquele com o melhor desempenho. Sua produção foi a mais cara. Em entrevistas, o ator Hugh Jackman, que interpreta Wolverine, chegou a compará-lo a Avatar, a ficção high-tech de James Cameron, dona da maior bilheteria da história. A semelhança não está na tecnologia de vanguarda, mas nos custos de produção. Estima-se que Avatar tenha custado em torno de US$1 bi. Dias de um Futuro Esquecido não ficaria muito longe disso. Especula-se que boa parte da verba tenha sido gasta no cachê dos atores. “Eles conseguiram reunir o melhor elenco que já vi em um filme de super-heróis em toda a minha vida”, diz Claremont. Entre os atores, há três ganhadoras do Oscar (Jennifer Lawrence, Halle Berry, Anna Paquin) e outros três indicados (Hugh Jackman, Michael Fassbender,Ellen Page). Além de uma porção de coadjuvantes populares.

Nesse, como nos outros filmes, Claremont se pôs à disposição da Fox como consultor. Por 16 anos ininterruptos, o roteirista escreveu títulos mutantes, entre 1975 e 1991. Depois disso, afastou-se da Marvel para retornar na segunda metade da década de 1990. Durante sua gestão, inventou e cimentou a personalidade de personagens relevantes. Mística, a bela transmorfa azul interpretada por Jennifer Lawrence, é criação dele. Até a semana passada, no entanto, não tinha visto o filme. Teve de esperar pela estreia. Estava ansioso: “Não se atreva a me contar como termina”, apressou-se em dizer quando, por acidente, deixei escapar alguns detalhes da história.

As duas tramas têm ligeiras diferenças. Em ambas, os X-Men encurralados pelos Sentinelas decidem enviar um de seus membros para o passado, de modo a corrigir o erro que criara aquele futuro sombrio. No gibi, a enviada é Kitty Pryde, uma adolescente de 14 anos capaz de atravessar paredes. No filme, o emissário é Wolverine.

Peter Dinklage, famoso por Game of Thrones, interpreta o cientista Bolivar Trask. O elenco estelar é um dos grandes trunfos do filme (Foto: Divulgação/Fox)

Peter Dinklage, famoso por Game of Thrones, interpreta o cientista Bolivar Trask. O elenco estelar é um dos grandes trunfos do filme (Foto: Divulgação/Fox)

 

Quando o quadrinho foi publicado, em 1981, a receita “robôs assassinos e viagem no tempo” ainda não se popularizara. Faria sucesso anos mais tarde com o Exterminador do Futuro, filme de 1984. Conta a lenda que James Cameron se inspirou na história de Claremont ao fazer seu filme com Arnold Schwarzenegger. Balela. A referência para o Exterminador foi a série de ficção científica Quinta Dimensão. Em X-Men, por outro lado, os autores tentavam fazer do mundo real sua matéria-prima: “Minha inspiração foi a primeira página da edição matutina do New York times”, diz Claremont.

Claremont, judeu, levava na memória familiar as recordações do Holocausto. Ao abrir o jornal, lia sobre a Guerra Civil no Camboja e sobre o Apertheid na África do Sul. “A sensação que eu tinha era de que a história corria o risco de repetir a si mesma”. Para ele, os X-Men falavam, sobretudo, sobre uma minoria lutando para ser aceita. Seus heróis eram homossexuais, negros, mulheres fortes em uma sociedade machista. Claremont assumiu para si o dever de tornar o gibi um veículo com consciência social.

Claremont entrou cedo na Marvel, como estagiário, logo depois de se graduar na Universidade Bard. Formou-se em atuação e teoria política. Por um tempo, tentou equilibrar o trabalho de meio período na Marvel com uma carreira curta de ator. Logo viu que não servia para os palcos. Na Marvel, seus talentos logo foram reconhecidos. Claremont começou na editora pouco antes de o editor-chefe, Roy Thomas, pedir demissão. Na reestruturação que se seguiu, o roteirista Len Wein assumiu o posto deixado por Thomas e Claremont, então com 24 anos, ganhou virou seu editor-associado. Sua sorte mudaria de uma vez em 1975. Àquela altura, a Marvel estava às voltas com um título que, desde o final da década de 1960, vendia mal. Os X-Men, criados por Stan Lee e Jack Kirby em 1963, foram pensados nos mesmos moldes que os demais personagens da dupla – um bando de adolescentes desajustados que, de uma hora para outra, descobre ter superpoderes. Não muito diferente de O Homem-Aranha que vendia quase o dobro. Mesmo assim, o título não decolara. Entre 1968 e 1969 a circulação da revista caiu 14%. De 1970 a 1975, a Marvel cessou a produção de novas histórias para o título. Os X-Men resistiam à base de reimpressões. Para efeitos práticos, a série tinha sido cancelada.

A nova equipe multicultural. A intenção da Marvel era conquistar o mercado internacional (Foto: Divulgação/Marvel)

A nova equipe multicultural. A intenção da Marvel era conquistar o mercado internacional (Foto: Divulgação/Marvel)

O retorno dos mutantes foi tramado ainda durante a administração de Roy Thomas, quando o presidente da Marvel, Al Landau, notou que o mercado internacional era receptivo a heróis de diferentes nacionalidades. Thomas decidiu que os X-Men deveriam retornar como uma equipe multicultural. Foi quando Len Wein assumiu como editor-chefe. Ficou sob sua responsabilidade escrever o roteiro de Giant Size X-Men nº1, a revista que marcava a volta dos mutantes. Em uma só edição, Wein apresenta um grupo novo de X-Men, formado por mutantes vindos de diferentes partes do mundo. Em plena guerra-fria, a história trazia Colossus, um jovem russo capaz de transformar sua pele em aço sólido; Tempestade, uma mulher que no Quênia, era louvada como uma deusa por sua capacidade de controlar o clima; Wolverine, um canadense com garras metálicas e pavio curto; e Noturno, um mutante alemão de pele azul capaz de se teleportar. A eles foi dada a missão de resgatar o grupo antigo de X-Men (Jean Grey, Anjo, Fera, Homem de Gelo e Polaris)  das garras de Kracoa, uma ilha dotada de conciência.

Wein escreveu apenas uma edição. Coube a Claremont assumir a publicação renovada e dar consistência aos personagens. O ano era 1975, ele tinha 25 anos: “Só o que pensei foi: ‘Puxa, finalmente eu tenho um emprego’”.

A frente dos X-Men, primeiro com o desenhista Dave Cockrum e depois com John Byrne, Claremont aprofundaria a temática do preconceito e da perseguição étnica, e fixaria as bases da mitologia mutante: “Naquela época, os personagens ainda não haviam sido estabelecidos”, diz Claremont. “É uma situação que raramente se repete hoje. Um novo roteirista assume os X-Men e tem de prestar contas aos 40 anos que o precedem. Para nós, os personagens estavam frescos, quase intocados. Tínhamos a liberdade de inventar, desde que não ferrássemos o trabalho. Nos divertimos muito”.

Ao criar seus personagens, ou se apossar das criações dos outros, desenhava perfis psicológicos completos, com absurdo nível de detalhamento. Foi o que fez ao reformular Wolverine, provavelmente seu maior sucesso. Quando Claremont assumiu X-Men, Logan acabara de aparecer. O mutante canadense fora recrutado para participar daquela primeira história, o salvamento dos X-Men originais das garras da ilha viva, em Giant Size X-Men nº 1. Na época, os editores o imaginavam como um rapazola de 18 ou 19 anos. Claremont preferiu transformá-lo em um velho ranzinza, de idade indefinida, em cuja personalidade conviviam instinto assassino e extremo senso de decência. Na imaginação de Claremont, esses traços transbordavam para cada aspecto da vida fictícia de Logan: “Se você olhar para o quarto dele na mansão X vai ver que metade do quarto é uma grande bagunça, parece uma lixeira. A outra metade, no entanto, é impecável. A representação da sua índole samurai”. Na imaginação do roteirista, ao acordar, Wolverine arruma a cama.

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Com muitas tramas paralelas e personagens com histórias secretas, Os Fabulosos X-Men  de Claremont e Byrne lembravam uma novela. Além de salvar o mundo, Kitty Pryde, uma adolescente de 14 anos que atravessa paredes, tinha de se preocupar com a ideia de mudar-se da casa dos pais pela primeira vez. Colossus sentia saudades da família, deixada na Rússia soviética, e Wolverine vivia um amor conturbado com Mariko Yashida, uma rica herdeira de um clã mafioso do Japão. Dentro dos limites, eram pessoas muito comuns, com preocupações triviais.

O roteirista Chris Claremont: "Não me conte o final, por favor" (Foto: Divulgação)

O roteirista Chris Claremont: “Não me conte o final, por favor” (Foto: Divulgação)

 

Claremont abandonou o título em 1991. Depois de quase duas décadas, havia transformado os mutantes em um sucesso de vendas. Naquele ano, escreveria o roteiro de X-Men nº1, novo título criado para acomodar os personagens (a revista principal, publicada desde 1963, levava o nome de Fabulosos X-Men). Com cinco capas distintas, destinadas a colecionadores, a edição vendeu mais de 8 milhões de cópias. Entrou para o Guiness como o gibi regular mais vendido em toda a história.

Anos mais tarde, ele ainda ajudaria a Fox a levar os mutantes para o cinema. “Em 1998, o projeto do filme estava pronto para ser levado adiante”, afirma Claremont. “Mas os produtores não conseguiam ver um ângulo adequado para o enredo, que animasse o diretor, os roteiristas e, com sorte, o público”. Claremont conta que coube a ele escrever um memorando de seis páginas, explicando os conceitos que orientavam a história. X-Men estreou em 2000, sob direção de Bryan Singer, o mesmo diretor de X-Men – Dias de um Futuro Esquecido.

Hoje, Claremont não lê mais os quadrinhos que ajudou a criar: “Não sou o público”. Gosta das adaptações para o cinema, apesar de ter ressalvas em relação ao terceiro filme da franquia, X-Men: O confrontro final: “Eu não teria feito aquilo, mas não eram os meus US$100 milhões pagando as contas”. Quando Dias de Um Futuro Esquecido estrear nos EUA, na sexta-feira (23), vai correr para assistir: “Só espero que eles tenham um final feliz no filme”, diz. “Mas não me conte, por favor.”

Fonte: Época

 

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