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Diretor de “Tropa de Elite” estreia em Hollywood com remake do Robocop, clássico de 1987 e consegue ir além da cópia

robocop

 

Não era fácil a missão do diretor brasileiro José Padilha em sua estreia em Hollywood: fazer um remake de “RoboCop”, filme do holandês Paul Verhoeven que adquiriu status de cult desde o lançamento, em 1987.

Em meio às inevitáveis comparações e à pressão dos fãs quanto aos mínimos detalhes, o cineasta de “Tropa de Elite” conseguiu fazer um blockbuster cheio de ideias e ir além da mera cópia. Para o bem ou para o mal, o “RoboCop” de Padilha tem mais emoção e questões políticas e menos humor e violência.

Embora a trama básica continue a mesma, vários detalhes foram modificados. Alex Murphy (o ator sueco Joel Kinnaman) é um policial que investiga um poderoso criminoso de Detroit. Uma explosão criada para impedi-lo de avançar no caso o deixa à beira da morte e faz dele o candidato ideal para um inovador e polêmico projeto da megacorporação OmniCorp: transformar um policial comum em robô.

Chefiada por Raymond Sellars (Michael Keaton), a empresa já produz os chamados “drones” para atuar em território estrangeiro, evitando que soldados arrisquem suas vidas. Mas para entrar no lucrativo mercado doméstico, Sellars precisa convencer a “robofóbica” população norte-americana de que RoboCop consegue unir a eficiência da máquina com a capacidade humana de julgar o que é certo e errado.

No filme de Padilha, Murphy está ciente do que aconteceu com ele (e em uma das melhores cenas, olha horrorizado para o que restou de si mesmo: o rosto, parte do cérebro, a traqueia, os pulmões e uma das mãos). Mas conforme o elemento humano ameaça atrapalhar os planos da OmniCorp, cientistas fazem o possível para reduzi-lo cada vez mais a um robô. É o amor pela mulher e o filho (Abbie Cornish e John Paul Ruttan, em papéis que ganham destaque muito maior no remake) que vai tirar Murphy do torpor desejado pela corporação.

O novo “RoboCop” não apenas retoma vários temas discutidos no original – a ganância das corporações capitalistas, os perigos da tecnologia e de substituir pessoas por máquinas, os riscos da privatização da segurança pública – como torna a sátira política e midiática bem mais declarada e menos sutil.

Para criticar e ironizar a política de segurança norte-americana, em especial o uso de drones (hoje, aviões não-tripulados atuam em áreas como Paquistão e Afeganistão), Padilha e o roteirista Joshua Zetumer contam principalmente com o apresentador de televisão Pat Novak (Samuel L. Jackson), um misto de Bill O’Reilly e José Luiz Datena que não mede esforços e sensacionalismo para defender a entrada de robôs na América.

A inserção de temas políticos ajuda “RoboCop” a se distanciar da média dos blockbusters e ser um filme de ação com ideias. O problema é que elas são muitas, e acabam sendo abordadas de forma superficial. Não há tempo para desenvolver totalmente as questões levantadas porque elas precisam ceder espaço para tiros, perseguições e explosões.

Divulgação/ José Padilha no set de 'RoboCop'

Divulgação/
José Padilha no set de ‘RoboCop’

 

 

Padilha conduz muito bem as cenas de ação, e é possível notar suas digitais mesmo num produto tão norte-americano. Como em “Tropa de Elite”, o brasileiro faz de “RoboCop” um filme veloz e cheio de movimento, marcado por câmera frenética e edição rápida. Os efeitos visuais e sonoros são bem inseridos, com cada passo do robô sendo ouvido pelo público.

O elenco tem mais talento do que o original, ainda que o rosto pouco expressivo de Kinnaman combine mais com a fase zumbi do RoboCop do que com os momentos dramáticos de Alex Murphy. Cornish derruba muitas lágrimas, mas o papel pouco desenvolvido a impede de ser mais do que apenas a mulher do protagonista.

Os destaques são os coadjuvantes, incluindo Keaton e Jackson, mas principalmente Gary Oldman, excelente como o cientista Dennet Norton, responsável pela transformação do RoboCop e dividido entre seus próprios princípios éticos e os interesses da corporação para a qual trabalha.

O personagem, inexistente no primeiro filme, também colabora para o tom mais sério e emotivo do remake. Quem for ao cinema esperando o mesmo humor e “gore” do “RoboCop” original deve se decepcionar: há muitos combates, mas eles são mais grandiosos, pouco pessoais e muito menos sangrentos do que os do original.

Se o filme de Verhoeven ganhou censura 17 anos nos EUA, o de Padilha recebeu o selo PG13, dado a filmes com conteúdo inadequado para menores de 13 anos. Na indústria cinematográfica de 2014, mais do que na de 1987, alcançar o maior público possível é crucial para pagar um blockbuster de US$ 100 milhões (R$ 239,7 milhões, quase oito vezes mais do que o orçamento do original). Tanto para RoboCop quanto para Hollywood, o tempo passou.

 

Fonte: Último Segundo – iG

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