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Pocinho de Jacó precisa de doações para ajudar dependentes químicos

Melquizedeque e Dragão são os principais colaboradores da casa de apoio Pocinho de Jacó (Foto: Érika Damásio/Labjorn – Fotec)

Diretor da casa de apoio está vendendo até a moto para ajudar os ex-usuários na luta contra as drogas e permitir a continuação do trabalho social

Por Érika Damásio

Na testa, a tatuagem estampada diz: “o pecador”. Ele anda de moto, luta jiu-jitsu, tem os cabelos compridos e usa roupa preta – uma camisa de manga comprida e uma espécie de saia que cobre até os pés. A aparência exótica, no entanto, disfarça um homem solidário, que ajuda moradores de rua e dependentes químicos. Em quatro anos conta, conta, ele já conseguiu recuperar cerca de mil pessoas viciadas em drogas.

Cláudio Roberto, conhecido como “Dragão”, é o diretor da casa de apoio Pocinho de Jacó, localizada às margens da Lagoa Azul, na Zona Norte de Natal. O projeto sobrevive apenas de doações. A iniciativa foi motivada por um amigo envolvido com drogas, que por ironia do destino, foi assassinado em fevereiro deste ano, em uma disputa por uma pedra de crack.

Apesar da boa vontade dos voluntários do projeto, a casa é humilde e não tem água encanada – por isso o nome “pocinho”, já que os dependentes químicos bebem a água do poço. O nome “Jacó” é uma referência ao personagem bíblico que era “enganador, trapaceiro” – justificando o título para essas pessoas que muitas vezes utilizam a ilusão e a violência para alimentar o vício.

Ao lembrar-se de como tudo começou, o diretor da casa se emociona: “A primeira dificuldade da gente é porque são dependentes químicos e a sociedade acha que não tem mais jeito”.  Muitos chegam ao local magros e doentes. Apesar dos baixos estoques de doações de alimentos que a casa de apoio está enfrentando, as pessoas que chegam lá recebem tratamento médico, refeições e um local para dormir.

Num terreno cedido, logo na entrada, existe um campinho de futebol de areia. Embaixo de um cajueiro, estão algumas cadeiras e o púlpito, que servem para os cinco momentos de orações diárias. Próximo a esse local existe uma pequena plantação de cana de açúcar e o poço de água. Do outro lado, já perto das acomodações, uma plantação de coentro, cebolinha e pimenta contrasta com algumas galinhas e pintinhos correndo de um lado para o outro. Na lagoa azul, os dependentes químicos tomam banho e pescam.

Atualmente a casa de apoio hospeda 37 pessoas. Uma casa maior abriga três cômodos com várias camas e beliches, além de um banheiro. No cenário humilde, tudo parece muito organizado. Segundo o coordenador voluntário, Melquizedeque Brandão, eles chegam lá “só o bagaço” e precisam de um tempo para se reabilitar. Para os dependentes, são impostas algumas condições para que eles permaneçam na casa, como disciplina e trabalhos de limpeza e afazeres domésticos – a essas atividades eles denominam “terapia ocupacional”. Ao todo eles podem ficar por lá num período, de nove até um ano e existe a possibilidade deles tornam-se “obreiros”.

Os obreiros são as pessoas “aparentemente recuperadas”, segundo Cláudio. Até porque segundo o obreiro e ex-viciado George Carlos de Lima, “ninguém está livre da droga e da recaída”. George é um exemplo de superação. Após perder o emprego, a noiva e a família por causa das drogas, também perdeu algo muito importante: a confiança. “Vendi tudo e só tinha a farda do trabalho. Eu usava crack, maconha, álcool e cigarro. Hoje, faz quatro anos que eu não uso nada, para a honra e glória do senhor Jesus. Eu cheguei aqui abalado, louco, e já estava comendo lixo. Não tenho vergonha de dizer isso”, relembra.

Apesar da estrutura humilde da casa de apoio, o local é organizado (Foto: Érika Damásio/Labjorn – Fotec)

O ex-usuário que foi ajudado pelo projeto, hoje ajuda os que passam pela mesma situação. Para ele, a experiência permite entender melhor os amigos da casa de apoio Pocinho de Jacó e confessa “a droga tem um poder que ninguém está liberto”. George ficou quase um ano sem visita e admite que só reconquistou a credibilidade junto à família depois de muito esforço e mudança nas atitudes. “Comecei frequentar a igreja, conheci minha esposa e hoje eu tenho dois filhos. Hoje eu valorizo cada dia da minha vida”, comemora o obreiro.

Dragão enfrentou problemas com cola de sapateiro, e avalia ter passado por uma situação bem mais fácil do que os colegas, para superar o vício. “Eu tive bastante ajuda”. Para ele, existe sim a possibilidade de sair do mundo das drogas. “Aqui você só volta para trás se você realmente quiser. Para você ter uma ideia, tem família que deixa o cara e aqui e vai embora”. Quando questionado sobre o fato de ser pecador, ele explica “aqui é uma casa cristã, mas aí tem um monte de gente que fala, ah, você não pode isso, não pode aquilo, aí eu tatuei o rosto para ficar próximo, apenas quem gosta de mim”. O amigo Melquizedeque acrescenta: “ele está sendo modesto. As pessoas disseram que ele não tem capacidade “santa” para administrar isso. Tipo, você não missionário, você não é diácono…você é um pecador!”.

Na lagoa, os dependentes químicos tomam banho, pescam e se divertem (Foto: Érika Damásio/Labjorn – Fotec)

 [Relato do repórter] Outra Realidade

Há uns dois anos, as primeiras informações que recebi sobre a casa de Apoio Pocinho de Jacó, foram numa célula de jovens protestantes que discutiam a bíblia. Os diretores pediam doações para dar continuidade ao trabalho social. Lembro que fiquei curiosa e perguntei se eu podia visitar o local, mas logo trataram de me alertar que lá seria um lugar perigoso.

Quando eu me deparei com a produção da pauta para a disciplina de Linguagem Jornalística, eu me lembrei desse projeto. Pensando na dificuldade de acesso, acionei um amigo meu que é policial civil. Prontamente ele falou que me acompanharia na reportagem e que podíamos ir ao local, no carro dele. Ele foi disfarçado de estudante e estava armado. Era o mínimo que podíamos fazer para nos defendermos, caso acontecesse alguma coisa.

No meio do caminho eu e o meu colega pegamos o coordenador voluntário, Melquizedeque Brandão, num posto da gasolina, como combinado horas antes, e partimos para a casa de apoio. Todo o meu contato até então tinha sido com ele.

Logo que chegamos, “Melqui” – nome que eu e Aldder passamos a chamá-lo –  falou que próximo ao local já tinham sido encontrados vários corpos de pessoas mortas. Até uma cabeça pendurada na cerca, eles já viram.

Fiquei assustada e ainda mais curiosa. Mas quando eu entrei lá, percebi que as pessoas estavam tranqüilas. Observei um grupo de familiares visitando alguns dependentes químicos. Depois de alguns minutos de conversa fui me adaptando ao local e focando na matéria. Fomos conhecer o lugar que os usuários de drogas em recuperação, dormem. Realmente, muito humilde, mas, todas as camas estavam arrumadas.

Depois descemos para deslumbrar a lagoa. Nesse momento, um homem estava sentado em cima da porta de uma geladeira, olhando fixamente para o horizonte. Achei essa cena engraçada e ao mesmo tempo, reflexiva.

Agora a minha maior surpresa, foram os depoimentos. Ali existem todos os tipos de pessoas. Até filhos de pastores e advogados já se entregaram às drogas e procuraram o local.

O mais incrível é que a casa não pede uma mensalidade pela a “hospedagem”. É tudo feito por caridade mesmo! Me explicaram que quando uma pessoa chegam a Casa de apoio dominada pelas drogas, é como se ela estivesse na UTI. O indivíduo não tem forças para se levantar sozinho, para se alimentar sozinho… ”Aqui eles não aprendem um ofício que lhe dê dinheiro, porque é ainda mais fácil ele converter isso em droga”, explicou Cláudio, conhecido como “Dragão”.

Melqui e Dragão, pediram que eu não falasse muito a respeito do amigo que foi a causa maior da fundação do projeto. “Ele lutou muito por isso aqui. Tinha uma vitalidade incrível e quando menos o esperávamos trazia uma esperança para esse pessoal aqui”, lembrou Melqui. Em respeito, também fiquei de luto.

Para finalizar, as aparências, certamente enganam. Pelas tatuagens e roupas esquisitas, poucas pessoas poderiam acreditar na capacidade que Dragão ou qualquer motociclista envolvido no projeto, de amar uma idéia aparentemente tão simples. Mas não é. “Até a família pode abandonar esse pessoal aqui, mas certamente a gente não vai abandonar ninguém”, falou Cláudio, com a voz trêmula. Ele é um cara que tem um coração muito bom. Pude enxergar emoção ao falar, solidariedade e muita vontade de ajudar as pessoas.

Fonte: Agência Fotec.

3 Respostas

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    25/07/2012 às 10:06

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    06/08/2012 às 19:25

  3. Paulino Silva

    Parabéns p trabalho de vcs!! Show de bola. Gostaria se possivel o Claudio Roberto ‘Dragão” entrase en contacto comigo, conhecemo-nos qdo ele stava na Jocum em Goiania e eu ministrei la algumas materia biblicas. . Ai Claudio se puder entre em contacto comigo!! Não esqueci de vc Brother. Abracs irmandade, God Bless…

    30/09/2015 às 12:37

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