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Filme “Os Vingadores” levanta polêmica sobre filhos adotivos

 

A cena: Thor, o herói loirão, tenta defender o vilão Loki, dizendo que ele é seu irmão. Viúva Negra, ex-vilã, informa-o que Loki matou 80 pessoas em dois dias. “Ele é adotado”, responde Thor.

A passagem acima, do filme “Os Vingadores” (maior bilheteria da história no Brasil), já foi vista por mais de 8 milhões de pessoas desde sua estreia aqui, em 27/4.

É menos de um minuto nas duas horas e meia em que os heróis vindos dos quadrinhos da Marvel exibem seus superpoderes. Poderia passar despercebido no meio das explosões intergalácticas e das roupas colantes de Scarlett Johansson (a Viúva Negra).

Mas o comentário de Thor ganhou destaque quando a americana Jamie Berke lançou uma petição on-line para que a Marvel (empresa do grupo Disney, produtor do filme) apresente desculpas formais por ter insultado os filhos adotivos e seus pais.

O argumento, ecoado por ONGs pró-adoção, é que a cena dissemina preconceito, fazendo uma associação imediata entre ter sido adotado e ser “do mal”. E num filme para crianças e adolescentes.

Para piorar, a plateia ri na cena. Quem tem uma história pessoal com adoção, é claro, não acha graça.

“Todo mundo riu, mas para mim o filme acabou ali”, diz Maria Bárbara Toledo, presidente da Associação Nacional dos Grupos de Apoio à Adoção. Ela foi assistir ao filme com quatro de seus cinco filhos (dois adotados).

Toledo soube da petição nos EUA depois de ter ido ao cinema. “Pedimos para nossa diretoria jurídica fazer uma carta, só falta saber a quem encaminhar.”

A associação presidida por Toledo já fez uma representação contra a TV Globo no Ministério Público por causa da personagem Tereza Cristina, vivida por Christiane Torloni na novela “Fina Estampa”, que terminou em março.

“Na novela, a vilã matava para não descobrirem que ela tinha sido adotada. Ter sido adotada e filha [biológica] de uma mulher que foi louca justificavam sua maldade. É o preconceito atrelado à ideia de descendência genética.”

O resultado da ação foi uma campanha pró-adoção veiculada pela Globo e estrelada por Torloni.

SEM BOICOTE

No caso de “Os Vingadores”, alguns relativizam a importância do comentário de Thor. “Vamos boicotar o filme? Não, vamos assistir e preparar a criança”, diz Mônica Natale, 46, gerente-executiva do Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo.

Ela levou seu filho Alberto, 7, para ver o filme. “Ele não riu, nem percebeu que era piada. Era desnecessária e retrata, sim, um preconceito. Mas ele gostou do filme, não ficou chateado por o vilão ser filho adotivo.”

O advogado Leonardo Pereira, 34, adotado quando tinha cinco dias, não fecha com o movimento contra “Os Vingadores”.

“Não quero ser do contra, mas a polêmica não pode ser maior do que a realidade. Acredito que a maioria dos filhos adotivos não sofre preconceito. As ONGs deveriam investir em campanhas de adoção, não em um trechinho de um filme”, diz Pereira.

GENÉTICA

O medo de que uma criança gerada por pais desconhecidos possa herdar genes que levem a distúrbios de comportamento é um dos fantasmas que rondam a adoção.

Sim, há genes que aumentam a predisposição a alcoolismo, depressões, comportamentos violentos etc.

“Mesmo que essas situações tenham um componente genético, o ambiente onde a criança se desenvolve tem muito mais relevância na organização do cérebro”, afirma Renato Flores, professor de genética e coordenador do Ambulatório de Neurociência do Comportamento Violento da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Além disso, a ideia de que é possível controlar a herança genética é duvidosa. “Veja, eu sou inteligente e a Gisele Bündchen é lindíssima. Mas o que garante que misturar o meu sangue com o dela vai dar alguma coisa que preste?”, pergunta Flores.

A brincadeira fica séria quando esbarra em outras noções sobre hereditariedade.

Em uma pesquisa sobre o que a população pensava da adoção, feita pela psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, boa parte dos entrevistados disse acreditar que marginalidade passa pelo sangue.

Há também o temor de que a mãe biológica tenha abusado de álcool e drogas durante a gestação. “O risco de essas substâncias estragarem o cérebro da criança é bem grande, mas, se o dano for identificado precocemente, podem ser feitos os tratamentos adequados”, diz Flores.

Para ele, a resposta aos medos de quem vai adotar não está na genética: “A pessoa tem que pensar: quero um filho para eu gostar, se ele tiver alguma limitação, vou gostar dele do mesmo jeito”.

Quando a apresentadora Astrid Fontenelle, 51, adotou seu filho Gabriel, em 2008, preencheu uma ficha em que respondia, entre outras coisas, se aceitaria crianças com distúrbios mentais leves.

“Marquei não. Depois, o juiz me disse: ‘Você acredita que exista alguém que não tenha nenhum problema mental?’. Aí caiu a ficha.”

Para Astrid, há crianças que lidam muito bem com o fato de terem sido adotadas e outras que têm problemas. Por isso, ela não desculpa a piadinha de “Os Vingadores”.

“Meu medo é isso reverberar em um menino de 6, 7 anos. No filme, pode parecer uma piada boba, mas o reflexo pode ser bem ruim.”

HERÓI E VILÃO

O filme “Os Vingadores” não foi o primeiro nem será o último a tocar em pontos delicados da adoção. Tratar o filho adotivo como um ser “diferente” não é prerrogativa da ficção moderna.

A visão está em mitologias e relatos de vários períodos da história –de Moisés, adotado pela filha do Faraó, a Clark Kent, o Super-Homem.

“O que denigre e o que exalta são dois lados da mesma moeda. Nenhuma criança preenche expectativas tão extremadas”, diz a psicóloga e psicanalista Maria Helena Ghirardi, do grupo de estudos, prevenção e pesquisa em adoção do Instituto Sedes Sapientae, de São Paulo.

A idealização da adoção pode ser tão problemática quanto os medos sobre a origem biológica da criança, segundo a psicanalista Gina Levinzon, autora de “Adoção” (Casa do Psicólogo, 2004) e professora de psicoterapia psicanalítica na USP.

“Tem pais que adotam não porque querem um filho, mas por quererem fazer um bem para a sociedade. Se esse filho começa a ficar mais rebelde, eles não se conformam. Eles têm que lidar com o filho que têm, o real, não com o imaginário”, diz Levinzon.

Para a psicanalista, o fato de a pessoa adotar um filho para satisfazer uma necessidade sua não é o problema: “Precisar ser mãe, ter um filho, é um bom motivo, desde que você tenha a clareza de que terá que respeitá-lo da maneira que ele é”.

Aos olhos dos outros, pode parecer um ato de benevolência e generosidade.

“Não fiz caridade. Nunca tive vontade de engravidar, de ter barriga, fui adiando a vontade de ser mãe. Quando veio a vontade, [a adoção] foi o melhor método para mim”, conta a apresentadora Astrid Fontenelle, que adotou Gabriel na Bahia, em 2008, quando o menino tinha 40 dias de vida.

DIFICULDADES

Como toda criança, aquela que foi adotada vai encontrar dificuldades na vida. “Existe esse mito de que ela dá mais trabalho, tem muitos problemas. Como se a adoção explicasse todas as dificuldades”, diz Levinzon.

Segundo a psicóloga, as pesquisas não mostram que filhos adotivos são mais problemáticos que os biológicos.

“Claro, algumas crianças podem ter passado por traumas, principalmente se foram adotadas mais velhas. Mas, se os pais estiverem preparados, bem orientados, tudo isso pode ser superado.”

Artigo de IARA BIDERMAN e JULIANA VINES
DE SÃO PAULO

Fonte: Folha.com

Uma resposta

  1. wow amazing article, it touches me from within!

    10/12/2012 às 10:29

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